A.S. King
Editora Novo Século
Sinopse: Vera Dietz e Charlie Kahn foram melhores amigos desde crianças até completarem 17 anos. Mas agora Charlie está morto. E morreu de uma maneira horrível e misteriosa. E morreu brigado com Vera.
A vida não tem sido fácil desde então. Vera não sabe direito como agir, como pensar, o que sentir. Sua mãe foi embora quando ela tinha apenas 12 anos, e seu pai é adepto da filosofia de ignorar os problemas até que eles desapareçam por mágica.
Mas Vera precisa fazer suas entregas no Templo da Pizza. Precisa abrir o coração para o amor. Precisa concluir o Ensino Médio. Precisa colecionar palavras para a aula de Vocabulário. Precisa entender o que realmente aconteceu com Charlie.
Precisa seguir em frente.
Resenha
O melhor amigo da Vera, Charlie, acabou de morrer. Mas está tudo bem, porque ela o odiava. Mas não está exatamente tudo bem, porque ela o amava. 5 meses antes da morte de Charlie os dois deixaram de ser melhores amigos e se afastaram um do outro. Ao longo desses 5 meses separados, o amor que Vera sentia por Charlie foi aos poucos se transformando em ódio, e então ele morreu. Vera não sabe exatamente como se sentir, pois a vida dela sempre foi uma bagunça emocional estrategicamente controlada. E como não bastasse a morte em si e os seus sentimentos conflitantes, Vera parece estar guardando um segredo relacionado à morte de Charlie, algo que o inocentaria.
Existe algum problema em odiar um garoto morto? Mesmo se u já o amei antes?Mesmo que ele tenha sido o meu melhor amigo? É certo odiá-lo por estar morto?
Fruto de uma gravidez acidental de pais adolescente, Vera é filha de um pai ex-alcoolatra, que acredita piamente que Vera possui genes do alcoolismo, e de uma mãe ex-stripper, que abandonou a família para fugir para Las Vegas com outro cara, Vera se esforça ao máximo desde criança para fugir do que acredita ser o seu destino, de seguir os passos de seus pais. Por sinal, o pai de Vera também parece acreditar que as crianças podem seguir o destino dos pais. Vera só quer passar pela vida despercebida, sempre emitindo sinais de "Por favor, ignore Vera Dietz". Seu maior medo sempre foi que os alunos descobrissem que sua mãe era uma stripper. Mas não é somente a vida de Vera que é uma bagunça, a vida do Charlie consegue ser ainda pior.
Havia uma razão pela qual Charlie era um sol tão brilhante e ofuscante. Ele vinha de um vácuo negro, frio e infinito.
Enquanto Vera, por pior que seja a sua situação, sempre pôde contar com o seu pai, e os livros de auto-ajuda dele assim como a atitude de zen que ele assumiu após ser abandonado, Charlie não tem ninguém com que ele possa contar, a não ser Vera. O fato é que o pai do Charlie espanca a mãe dele constantemente e sua mãe sempre aceitou as surras caladas. E essas sessões de espancamento não são nenhum segredo para Vera e o seu pai. Porém o pai de Vera sempre tomou a decisão de ignorar. E mais do que isso, sempre mandou Vera ignorar também. Ele, assim como a maioria das pessoas, acredita em ignorar um problema até que ele desapareça. E é por causa dessa atitude que Vera não só nunca fez nada em relação aos seus vizinhos, mas como também nunca fez nada para tentar superar o abandono por parte da mãe.
Parece que quanto mais as pessoas envelhecem mais merda elas ignoram.
Charlie e Vera sempre foram inseparáveis, desde crianças, e ao longo dos anos sempre estiveram lá um para o outro, eles sempre souberam os segredos um do outro, etc. Com o tempo o amor que Vera sentia por ele como amiga foi evoluindo, até ela se apaixonar. Mas lembre-se que Vera está tentando fugir do seu destino, e que acredita que os filhos estão fadados a seguirem os passos dos pais, então isso significaria que Charlie iria se transformar em um homem que espanca a esposa, certo? Mas por mais que o seu cérebro saiba disso, o coração dela não parecesse muito interessado em racionalizar as coisas.
Então você deve estar se perguntando o por quê da Vera o odiar, do por quê de eles não serem mais amigos, como Charlie morreu. Bem, não vou responder nenhuma dessas perguntas, para saber as respostas você precisará ler o livro e descobrir. Mas independentemente de seus sentimentos, do seu suposto ódio, o fato é que Vera não consegue tirar Charlie da sua vida, ele a persegue onde quer que ela vá, literalmente, não importando o fato de ele já estar morto. Mas tudo o que Vera quer é seguir com a sua vida, terminar o segundo grau, conseguir uma grana no seu emprego na pizzaria para pagar a faculdade, se apaixonar, se esquecer do seu melhor amigo idiota que ela odeia/ama e que morreu.
Vou dizer uma coisa: se você acha que o fato do seu melhor amigo morrer é uma desgraça, pense em como seria a morte do seu melhor amigo depois que ele te sacaneasse. É uma desgraça como nenhuma outra.
O livro segue narrativas tanto no presente quanto no passado. No presente vamos acompanhando como Vera foi seguindo com a sua vida após a morte de Charlie. Além do ponto de vista da Vera, nós temos pontos de outros personagens também (surpresa!). Já no passado, a estória vai sendo construída através dos anos, desde que Vera e Charlie eram crianças até o dia da morte de Charlie. E dessa forma vamos descobrindo aos poucos tudo o que realmente aconteceu e finalmente temos nossas respostas.
O livro já se inicia durante o enterro do Charlie e eu logo de cara já queria juntar as esferas do dragão para poder trazer o Charlie de volta. E esse sentimento se mantém com maior ou menor intensidade ao longo do livro. Nossos sentimentos acabam se tornando um com os da Vera, por vezes amamos Charlie e por outras vezes o odiamos. Mas o ódio nunca é profundo ou verdadeiro, é só uma vontade louca de dar uns tapas nele, mas aí depois você se lembra que ele já está morto e fica deprimido.
Charlie era atraente de uma maneira tão estranha que eu tinha dificuldade de explicar - uma mistura da vontade de matá-lo com a vontade de beijá-lo ao mesmo tempo.
Vera e Charlie não são os únicos personagens com problemas nesses livro, por diversas vezes também acompanhamos os problemas do pai da Vera, Ken, que graças ao seu lema de ignorar os problemas, não consegue realmente superar o abandono da ex-esposa. No início senti raiva dele, por sua toda a coisa do "ignorar a vizinha sendo surrada todos os dias", mas ao longo do livro vamos o conhecendo melhor e a raiva vai passando (embora eu ainda odeie essa política de ignorar). Então Vera não é a única personagem que acompanhamos a evolução, pois o mesmo acontece com o pai dela.
Eu conheço esse livro faz alguns anos e já tinha até desistido que ele fosse traduzido aqui no Brasil, então quando a Novo Século disponibilizou o livro para os seus parceiros eu fiquei extremamente feliz e empolgada de finalmente poder ler essa estória. E devo dizer que ela correspondeu à todas as minhas expectativas. O livro te seduz logo nos primeiros parágrafos, te suga para dentro da vida da Vera e não te deixa mais sair. E página após página, enquanto acompanhamos as tentativas de Vera de ter uma vida normal e a reconstrução do passado de Vera com Charlie, um aperto na garganta, que começou no início do livro, só vai aumentando. Porque Charlie já está morto e a qualquer momento você sabe que as memórias felizes de Vera com ele vão se transformar, que você vai finalmente descobrir o que aconteceu.
A edição do livro também está linda, a capa é perfeita, as páginas são amareladas e a fonte está em um tamanho ótimo para não cansar a vista. A editora sabia que iríamos devorar o livro e ele está perfeito para que possa ser devorado sem restrições.
A estória desse livro não é tocante somente por causa do sofrimento, ele nos toca também por mostrar personagens tentando superar as perdas da vida da melhor forma possível, para que então possam buscar a felicidade, como todos nós, tanto os jovens quanto os adultos. Sem sombras de dúvida, eu dei 5 estrelas para o livro. Apesar do título, por favor, não ignore Vera Dietz, leia esse livro!
Na boa, eu não consigo entender. Se o ideal é que ignoremos tudo o que há de errado em nossas vidas, então não vejo como as coisas poderiam um dia dar certo.
Classificação
Sobre a autora
A.S. King nasceu em Reading, no Condado de Berks, na Pensilvânia. Leitora voraz, chegou a ler um livro por dia durante todo um semestre antes de escrever sua primeira obra. Ela conta que o livro que a impulsionou a ser uma escritora foi Os versos satânicos, de Salman Rushdie. Fotógrafa de formação, A.S. King afirma inspirar-se por tudo o que possa ser nomeado. De repente, uma idéia; uns meses depois, um livro. King já tem mais de dez obras publicadas no exterior. No Brasil, a autora publicou Os dois mundos de Astrid Jones. Por favor, Ignore Vera Dietz é considerada sua obra-prima.

























